quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Danos ao Coração


Sai de casa.
Estava disposta a reconstruir meu coração, juntando os cacos que consegui encontrar.
Eu não sabia se o que eu sentia por eles era paixão, daqulas fortes demais que te causam torpores fortes quase incuráveis, ou amor. Mas uma pessoa pode amar duas pessoas?
Cheguei na estação da Sé e olhei no painel de informações para saber qual destino tomar. Fiquei ainda mais dividida. Leste ou Oeste? Onde irei primeiro? Decidi ir pelo mais difícil, embora eu soubesse que, o lado mais fácil estava me esperando com os braços abertos. Mas eu amava o lado difícil a mais tempo.
Peguei meu celular e disquei o número de Dave.
- Alô. - ele atendeu um tanto surpreso.
- Dave. Gostaria de saber se posso ir até sua casa hoje? - perguntei fechando os olhos rezando para que ele apresentasse algum problema e me fizesse desistir dessa loucura que já estava arrependida de cometer.
- Claro que pode. - ele confirmou animado - Minha mãe vai adorar te receber.
- Humm. - mordi o lábio - Você pode me pegar na estação? Não lembro o caminho até sua casa.
- Com todo o prazer Fernanda. Ao meio-dia estarei lá. - ele desligou o telefone.
Você é burra Fernanda, pensei, agora está feito. Lado leste escolhido.
Dave estava na catraca da estação Calmon Viana esperando-me pacientemente. Ele me seguiu com os olhos no trajeto de subir e descer as escadas até a saída.
- Você está bonita. - ele me deu um bejo no rosto cumprimentando-me.
- Faz tempo que não me vê. É isso.
Dave deu de ombros. Seguimos por uns minutos por caminhos que eu faria até mesmo desacordada, mas para Dave, eu não sabia nem onde pisar. Queria estar na presença dele, por isso o convidei a me buscar. Precisava dele, de seu corpo, de seus beijos. Foi por ele que derramei litros de lágrimas sem que ele soubesse de minha paixão descontrolada por ele.
Levei uma pequena mala para passar o final de semana. Até ali eu não acreditava que havia cancelado o final de semana com Bruno só para sofrer um pouco mais. Mas quem sabe se nesse final de semana tudo mudar? Estava disposta a na hora certa extravasar e lhe contar tudo. Sou uma mulher de atitude, não posso esperar, não consigo.
A Sra. Lira é um doce de pessoa, me recebeu como se eu fosse uma de suas filhas, com tanto amor e carinho. Me hospedei no quarto de Janeide, irmã mais nova de Dave. Falamos sobre diversas coisas. Por ela ser da minha idade, nos demos muito bem, além do mais, nos conhecíamos bem, só não éramos próximas uma da outra.
A hora de dormir pra mim foi a pior. Sempre soube que os pais de Dave dormiam cedo, mas não tanto. 21 horas e os senhores já estavam roncando. Janeide estava deitada em sua cama, com fones de ouvido esperando o sono chegar. Segurei-me com força ao colchão para não ir até o quarto "dele", nem que fosse para uma conversa, embora eu quisesse algo mais. Há anos eu queria.
Quando Janeide dormiu, sorrateiramente fui até a porta do quarto de Dave. Estranhei pois, não havia sinais de alguem lá dentro. Não havia sons de respiração ou roncos. Decidi entrar. Como suspeitei, ele não estava. Dei de ombros. Estava com sede e a cozinha pareceu chamar meu nome. Atendi. Abri a geladeira e peguei a jarra de suco, mas antes de pegar um copo, ouvi vozes no portão. Decidi ouvir para saber se era Dave que estava lá.
Era ele mesmo conversando com alguém. Não pude ver quem era pois ele estava na frente, também não pude ouvir pois falavam muito baixo. O espírito da louca baixou em mim, então tive coragem de abrir a porta da casa e sair para saber com quem ele conversava assim e vi o que eu não queria ver: ele estava beijando uma outra garota que nacerta era sua namorada. Por que não me falou dela.
Entrei. Minha sorte foi que eles não notaram minha presença, mas com a raiva e meu coração mais quebrado ainda, fiz um favor de quebrar algo mais. Com a cabeça ainda lá fora, bati a mão sem querer no copo que estava em cima da mesa e ele caiu no chão. Pouco depois Dave entra enquanto eu varria os cacos.
- O que houve? - ele perguntou fechando a porta à chave.
Estranhei seu gesto. A namorada foi-se embora?
- Estava distraída e o copo escapou de minha mão. - inventei a primeira coisa que veio a mente. - Vou dormir.
- Okay. To indo também.
Não consegui olhar seu rosto. Por que eu gostava de sofrer assim? Por que eu era masoquista com os sentimentos? Ainda era sexta e eu já estava destruída sentimentalmente. Voltei chorando para o quarto.
Deitei a cabeça no traveseiro fazendo promessas de que tentaria ver dave como o amigo que ele sempre foi, e não como... Chorei ainda mais com isso.
No dia seguinte, ele me chamou para sair. Aceitei de primeira. Ele me levou num shopping que havia na avenida principal do bairro dele. Não era lá muito grande como os da capital, mas até deu um bom passeio. Fomos a uma praça e passamos a tarde quase toda conversando. Dave me falou que tinha uma ficante que estava ficando apaixonada por ele, mas ele já estava com vontade de dispensá-la.
- Mas por que você vai fazer isso com ela?
- Fernanda, eu tenho 19 anos. Não posso me prender a um namoro agora. Por que daí tem sexo e mais sexo, e logo vem filho. Não quero ter filho agora, e nem tão cedo. vai tirar minha liberdade que tanto lutei pra conseguir.
Era meio estranho ouví-lo falar daquele jeito.
- Não sabia que você não tinha sentimentos assim.
- Vai me dizer que você ama algum cara? Ta na cara que você prefere ficar também.
Mudei de assunto antes de eu falar alguma bobagem e depois começar a chorar na frente dele. Por ele.
A noite fiquei um bom tempo em seu quarto. Estavamos conversando como amigos comuns. Como sempre escondi bem meus sentimentos por aquele ser sem sentimento. Ouvimos algumas de suas músicas preferidas, falamos da saudade que nós sentiamos de alguns colegas de escola que foram fazer alguma outra coisa e perdemos contato.
De tanto conversarmos, já estava ficando com sono e deitei-me em sua cama que era de casal. O frio estava feroz lá fora. A chuva o dava forças. Encolhi-me ali naquela cama enorme. Arrepiei-me quando ele disse:
- Quer dormir aqui comigo? - sua voz não saiu com ar safado ou galanteador, e sim como uma pergunta comum, mas com uma leveza que deixou seu rosto mais lindo do que já era.
- Para Dave. Vou pro quarto da sua irmã. - mas não me levantei, só me espreguiçei.
- Para de besteira. - ele me puxou pra perto. - Não vai rolar nada, só dorme aqui comigo. Te esquento mais que os cobertores da minha irmã.
- O que vão pensar?
-Nada, por que não há por que ter preconceito. Você só vai dormir comigo. DORMIR. - ele deu ênfase a palavra.
Dave pegou um cobertor enquanto eu me aninhava em sua cama. Quando deitou, ele me abraçou. Tive vergonha de chegar mais perto e me agarrar aquele corpo que estava mesmo mais quente que os cobertores.
- Tá com frio? - ele sussurrou em meu ouvido.
- To sim. - consegui sussurrar respondendo. Minha cabeça estava confusa. Me senti uma vadia deitada naquela cama. O que eu estava fazendo deitada ali? Mas quando dave me pedia alguma coisa, eu simplesmente não conseguia negar.
Sem dizer nada, ele me abraçou e me deixou a vontade de retribuir o abraço. Dormi quase imediatamente com o conforto de seus braços me abraçando.
Domingo amanheceu chuvoso. Havia diversas camadas de nuvem cobrindo o céu que eu mais gostava: Azul com sol forte.
Dave e Janeide alugaram uns filmes para vermos depois do almoço. Mas não imaginaria jamais que eu não almoçaria naquela casa.
Quando fui ao quarto de Dave chamá-lo para o almoço, ele estava falando ao celular com alguém que me pareceu ser sua "namorada". Ele dizia algo sobre estar apaixonado por ela e que sua prima - que tenho certeza ser eu - o tinha feito perceber como é legal amar e etc.. O que eu fiz?
Sua "namorada" se chamava Raquel, mas ouvi ele dizer Aline. Então ele ficava com uma, DORMIA com outra e jurava amor por outra. O espirito da louca baixou novamente em mim e entrei no quarto quase arrancando as dobradiças da porta.
Ele se assustou com minha ação e olhou pra mim meio confuso.
- O que é que você esta falando? - falei parecendo estar possuída.
- Amor, vou desligar, minha... irmã ta tendo um daqueles acessos. Te ligo depois.
Não aguentei, ele me chamou de irmã. Meu chão sumiu e me senti caindo no abismo. a Cara dele piorou ainda mais o que eu estava sentindo. A essa altura eu tinha me mostrado uma louca sem noção pra ele.
Não consegui fazer outra coisa a não ser correr. Ele veio atrás de mim mas não olhei pra trás. Passei pelo portão, atravessei a rua sem nem olhar para os lados, isso resultou um quase atropelamento por uma moto. Entrei num matagal que tinha à frente da casa de Dave. Na verdade era uma plantação de cana e mais algumas coisas que nem me lembro por não prestar atenção. Entrei no matagal e ele continuou atrás de mim. Quando parei, ele me chamou.
- Fernanda! Espera.
Eu olhei pra ele, bem na hora que uma lágrima escapava de meu olho esquerdo.
- O que está acontecendo? - ele perguntou sem saber se ia até mim ou se era mais seguro ficar onde estava.
- O que está acontecendo? Eu te amo é o que está acontecendo. - eu disse rangendo os dentes de raiva e ódio de mim. Nessa hora eu nem sentia a chuva forte que caía. Com a certeza que depois dessa conversa, eu jamais olharia na cara de Dave, contei-lhe tudo que ele deveria saber. Já que ele gostava de assassinar corações, ele deveria provar de sua própria arma assassina para saber como dói. Eu acho - Ontem tive vontade de agarrar você e te puxar pra mais perto do meu corpo. Fazer sexo com você e mais o que quisesse fazer! A mais de 4 anos eu te amo e você diz que sou sua irmã?
- Eu te vejo dessa forma, eu não sabia que...
- Cala a boca, eu só preciso gritar um pouco - falei tentando me organizar - Quer saber, pra mim chega de você, cansei de lutar à toa. De entragar meu coração você e você na mesma hora pisar em cima. Cansei.
- Quem cansou foi eu. Para com esses papinhos de "coração quebrado", e essas babaquices aí! Amar é complicado, sou mais ficar. Isso é bem melhor. Se você ou qualquer outra me ama, o prioblema é de vocês, não pedi isso. Só pedi sua boca e seu corpo, mais nada.
Pela primeira vez, o olhei com nojo. Tive vontade de correr até ele e bater em sua face até sangrar, mas ele não ia deixar.
Ele me deixou ali, virou-se e foi para casa resmungando que estava se molhando à toa e que eu já tinha enchido sua paciência.
Me ajoelhei numa poça de lama e comecei a pensar no pobre e amável Bruno. Eu o deixara para sofrer o final de semana inteiro. A essa hora ele deveria estar deitado em sua cama, escutando a nossa musica "Sings" da banda Bloc Party, e fazendo algum trabalho da faculdade. Queria estar ao seu lado, fazendo companhia, beijando sua boca, abrançando seu corpo e ele fazendo o mesmo por mim. Mas eu não sentia o mesmo amor que eu sentia por Dave. Depois daqueles minutos na chuva e na poça d'água, decidi que daria uma chance a nós dois.
Me recompus e fui arrumar minhas coisas que naverdade já estavam prontas. Não almocei, fui direto ao chuveiro. Enquanto me secava, liguei para Bruno pedindo para que ele fosse me buscar na estação Calmon Viana, mesmo sendo longe pra ele. Sem pensar ele aceitou.
Não vi mais o rosto de Dave naquela tarde. Me despedi do Sr. e Sra. Lira e de Janeide e fui para a estação.
Pela primeira vez, meu coração bateu de uma forma diferente quando vi o largo sorriso no rosto de Bruno, ali do lado de dentro da estação me esperando para embarcarmos juntos. Do jeito que eu queria. O vi de uma forma diferente e agora talvez fosse pra valer. Juntaria até os pequenos cacos que sobraram de meu coração e com Bruno, eu o reconstituiria.
Seu beijo de cumprimento foi longo e reconfortante. Não vi nada a minha volta, só deixei o momento acontecer. É nessas horas que agente diz: "se arrependimento matasse...". Por que eu tive de vir pra cá? Mas para essa pergunta eu tinha uma resposta: Eu queria ter a certeza do meu amor por Dave, como vi que este não iria dar certo, o jeito é seguir a vida e não me prender ali naquele sofrimento eterno.
No trem, encostei a cabeça na vidraça e uma lágrima escapou de meu olho esquerdo - precisava aprender a detê-las a tempo - quando lembrei-me dos 3 dias na presença daquele ser sem sentimentos. Aquele... monstro! Fiz uma cara de choro horrível.
- Depois você me conta - disse Bruno - Mas não precisa ficar triste, eu estou aqui. Sempre. - ele me abraçou.
Deitei-me em seu peito, deixando as más lembranças para trás.
Naquele trem, eu não embarcaria nunca mais.
A chuva parou de cair.

16 comentários:

  1. Oooown q fofo *-*
    amei kino *-*

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  2. Que coisa mais linda!!! realmente muito bonito ^^ Você tem talento ^^

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  3. Ebaaa... Obrigado. Muito obrigado mesmo!

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  4. Muitoo lindoo'
    grande talento Kino
    Assim vc vai longe...

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  5. aah que incriveel primo *-* . ta perfeitoo ♥

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  6. kininhooo está mtu incrivél...
    estou realmente impressionada, ficou uma história fofa e mtu real
    (e realmente compensa ler até o final)
    parabéns my friend *-*

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  7. Aahhh.. é vs que fazem um autor feliz. Com críticas boas ou ruins, são vs que fazem o nosso trabalho compensar. São pra vs que escrevemos e como vs meressem, fazemos sempre o melhor.

    Obrigado a todos. Muito obrigado mesmo, de coração. S2

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  8. Adoravelmente dentro dos padrões de histórias reais. Muito bom. Você está de Parabéns, meu!
    Incrível.

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  9. ficou muitoo foda ...
    uma historia incrível.
    man,oÒ
    vc tem um grande talento.

    parabéns kino

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  10. Kino seu conto ficou muito bom e muito profundo!

    O desafio de criar uma história em primeira pessoa e ainda por cima contada por uma garota é algo a se louvar! Meus parabéns!

    Continue assim!

    Abraços!

    Leandro.

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  11. Uooooooooow .
    adoogueei '
    parabéens '
    (y)
    Inspiradoo noo meeu noomee '
    óooh ><

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  12. Final totalmente incrível, ameeei *----*
    Me sinto a Fernanda as vezes (as vezes = sempre)
    Conto quase perfeito, ta de parabéns!

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  13. nossa, muito legal mesmo, ate parece a minha vida, rsrs

    adorei...

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  14. Se eu não tivesse te conhecido agora e se vc soubesse da minha hist com o W eu falaria q vc tinha se inspirado em mim...kkk..Amei.Simplesmente perfeito.Vc tá de parabés

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  15. A Verdadeira e Real história de um Amor'...
    Com Sofrimento e Dor'...
    Parebéns Kino gostei..



    .Johnny'..

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